quarta-feira, 11 de junho de 2008

Pulverização da memória

Conversando com meu amigo Aroldo, que inclusive lançou um comentário neste meu tão concorrido blog, que aqui faço questão de repetir e continuar o assunto:
"tecnologia digital. Fica aí um pensamento do Otavio Paz: "Se a memória se dissolve, o homem se dissolve", preocupação que já perturbava Sócrates diante da passagem da tradição oral para a escrita..."
pois não é? Para exemplo, me lembro de quando sou apanhado por alguma melodia e então vou para uma partitura escreve-la. O que acontece depois é que, com o desencargo de guardar na memória, como que instantâneamente a esqueço. E se a esqueço de minha cabeça, nunca me lembro de recorrer as mil anotações pra encontrar algum propício trabalho futuro...quando percebi isso, parei de anotar, pra assim manter a memória "acesa" e partir para tocá-la intensivamente de uma vez, que é muito mais proveitoso! Eu percebo "auxiliares"de memória muito comuns nestes dias de tanta tecnologia. De tanto registro de memória. Imagens, imagens, registradas e pulverizadas em KB em milhões de HDs. A grande maioria jamais será revisitada, muito menos apalpada. Sim! apalpada. Isso não é pieguismo. Somos seres cinestésicos. Usamos o tato pra nos situamos no mundo, sentirmos e no mínimo avivar a memória ( tanto é que, de todos os sentidos, aquele que se perdemos é o que mais sentimos falta em nossa existência, que na verdade é uma condenação a morte, é o tato). Mas voltando a prosa, podemos hoje registrar tudo, mas tudo mesmo e muitas vezes, aniquilamos nossa própria memória...Como se o que fazemos é justamente o contrário? salvamos a memória a registrando! Nem sempre. Muitas vezes parece mais um desencargo de consciência. Ora, até anotar um pensamento é sim um desencargo de memória. Os contos orais atravessam gerações justamente pela exigência óbvia da memória...usa-se a boca ou a obra morrerá!
Voltando mais uma vez eu pergunto: há tempo pra reavivar tanta memória registrada em KB?... cada vez temos menos tempo em tantos artifícios criados para nos adiantar o tempo...Isso porque as exigências também vêm via estes próprios artifícios.
Toda a propaganda criada de redução de tempo é mentira pura.
E então entro na segunda questão no pensamento...o homem sem memória. Memória, rápida, mutante e muitas das vezes, descartável. O que nos assusta hoje? o que nos faz refletir por mais de uma hora a fio? Duvido que não seja alguma questão pessoal. Cada vez mais escravos do tempo, como que numa areia movediça que quando mais no mexemos...deixa pra lá.
tempos da pulverização da memória.
Entro aí numa outra reflexão: Se não há muito tempo, mas facilidade de registro, informação ampla e fácil, chegamos aos "minifúndios artísticos".

4 comentários:

Lopes C. de la rocha disse...

Boníssimo texto, Gilberto. Adorei! Por coincidência, estou lendo um livro que cruzou com essas informações. O livro é “Música e Literatura”, de Federico Sopeña, um crítico musical com vasta experiência no estudo de memórias e diários de grandes compositores e autores.

É, meu caro, você também é bom escritor e, talvez por isso, é um grande compositor e músico.

Valeu! É um prazer tê-lo como interlocutor!

Marco Llobus disse...

Sim, um belo texto. Conduções de um homem no seu tempo. Por favor, meu irmão, me permita... Não sei se são as transformações geradas pela capacidade de registro. Registramos tudo, mas até onde não é uma interpretação, ou melhor, uma encenação, querendo compor uma realidade. Sabemos que toda essa informação, não será de fato uma cognição real, talvez, apenas um "resvalo" da realidade de um individuo. Como muitas vezes, viemos em discussão - onde estou e para onde vamos - aí nos deparamos com esse conceito que abarca e limita a compreensão de um todo. Este todo que nunca será um todo, se não um INDIVIDUO. E neste mar chamado memória não teremos como compactuar ou compactar esse todo. Com todos esses signos, e será ainda eles dignos ou capazes de interpretar a relação intima ou profunda, que descrevem uma parte realmente significativa de uma vida? Talvez, seja apenas o imperativo de um destino criado pela ditadura da escrita. Perpetuar além do tempo, tentando marcar ou demonstrar valores ou idéias para o além tempo, além dessa famosa condição chamada de "miséria humana". Não sei também, se é digna de piedade, ou simplesmente precisa ser re-vista com mais objetividade, digo, na condição mortal em que todos nos estamos condenados. Lembro-me da compreensão que tive ao lidar com pensamento (melhor dizendo) perspectiva de conduta de vida, a filosofia, não escrita e repassada pela oralidade e pensamento de algumas culturas indígenas - que por sorte tive acesso. O homem, como sendo o primeiro e o último - a sua primeira ameba genitora e o último de sua espécie, onde, e por ali se descarta o individuo, transformando a espécie humana num único corpo. Assim como água de nosso planeta. Talvez o apelativo, seja a necessidade do individuo, e passando por outro pensadores, vejo que a única coisa existente, nesta viagem solitária, seja a afirmação dessa individualidade perante ao astro rei, onde no retorno, universal e infindável, do qual não sabemos se queremos, ou seja, há algum objetivo? E nessa necessidade de suprimir essa angustia de “existir”. Caio na cilada de perceber, que mesmo ela, tal angustia, só permitida pela possibilidade de ter memória. Aí, me pergunto que memória e essa... a minha ou de um corpo inteiro que se levanta fazendo um leque de possibilidades neste universo misterioso, onde nós os Apolos estamos agora por segurar (haja memória). Talvez, seja um castigo de Deus. Sinceramente, não sinto nem mesmo necessidade dos por quês... e geralmente, hoje, me calo. E levo a minha memória, somente a minha memória, com todos suportes, analógicos ou digitais, somente para individuo que sou. Talvez seja o meu grito para provar ou desistir que eu existo.

Rindo... Lembrei-me – Penso logo existo. Enquanto no oriente... – Não pratico o pensamento e tudo existe.

Unknown disse...

Cara, esse negócio de tempo, da materialidade das coisas... se nós estamos vivendo uma nova renascença, assim como naquela estamos vivendo um novo desencanto, como aquele finalizado pelo uliminismo. engraçado como tudo aquilo deu origem à utopias inversas como a do homem natural, e eu sinto que isso vai voltar com força (está super na moda ser folk), desta vez por necessidade real de sobrevivência, se não desacelerarmos e baixarmos nosso padrão de felicidade o mundo vai acabar.

Unknown disse...

Quem guarda em HD a lembrança do primeiro beijo ou o primeiro encontro de olhares com um amor ou até o momento de uma notícia de morte de alguém querido? Da mesma forma poucos sabem de memória, os elementos da tabela periódica ou a conjugação de verbos. Porque guardamos algumas lembranças e outras temos que armazenar em HDs? Creio que a resposta está na natureza delas ou no sentido ou significação que demos a elas.
Não tem saída somos sós e, na experiência só cabe um individuo. Acho que a memória é uma questão de estar ali, ela não cede às exigências do tempo, do espaço ou das necessidades "modernas" do indivíduo.